Artigo de João Isaac
16-02-2020

O regresso do polícia sinaleiro a alguns locais de Portugal tem uma explicação simples: a tradição. A figura icónica do “cabeça de giz”, alcunha pela qual são conhecidos os agentes que regulam o trânsito, é agora uma presença assídua na vila de Cascais. O Agente Marco Graça é o responsável por essas funções que orgulhosamente desempenha, controlando o tráfego de veículos e também os peões, cuja grande afluência nessa zona turística lhe dá, principalmente no verão, bastante trabalho.

Há quanto tempo está na Polícia de Segurança Pública? É a primeira vez que executa funções de polícia sinaleiro?

Vim para a Polícia de Segurança Pública em 1998. Fiz a minha formação em Torres Novas durante seis meses e contando com esse período já são mais de vinte anos ao serviço da PSP. Esta é a minha primeira vez enquanto polícia sinaleiro, mas já estou na valência do trânsito desde 2004. Este projeto, esta ideia do regresso do polícia sinaleiro, surgiu há cerca de dois anos. A ideia foi desenvolvida e eu comecei a exercer funções aqui em Cascais há cerca de cinco meses, desde o final do verão, sensivelmente.

Noutros pontos do país, existem igualmente polícias sinaleiros?

Sim, existem. Conheço melhor a realidade aqui próxima de nós, nomeadamente em Lisboa. Já existiram muitos, mas neste momento existem três na zona de Belém. Um deles está no cruzamento do antigo museu dos coches e os meus dois outros colegas trabalham na zona mais próxima dos pastéis de Belém. Existe ainda um colega em Vila Franca de Xira, já com aproximadamente três anos de funções, e um outro em Loures há cerca de um ano. Mas sei que existem mais no país, como em Castelo Branco, por exemplo. O objetivo é mesmo dar continuidade a esta figura tão singular das estradas, para que o polícia sinaleiro não acabe.

Relativamente à formação específica do polícia sinaleiro, o que considera mais importante?

A formação é dada pelos colegas com mais anos de experiência. No meu caso, passei quinze dias junto deles, em ambiente de trabalho, a desenvolver a minha capacidade de lidar com o tráfego, com os carros e os peões. Eu já tinha muita dessa capacidade, mas em ambiente de trabalho, enquanto polícia sinaleiro, é um pouco diferente. Nessa posição, acabamos por ser o centro das atenções.

Acha que a tradição teve muita responsabilidade no regresso do polícia sinaleiro?

Sim, claramente. Vejo muitas pessoas, principalmente os mais velhos, a relembrarem, com nostalgia, a imagem do polícia sinaleiro e a dizerem-me: “Um polícia sinaleiro! Há tanto tempo que não via um desses chapéus”. São expressões que surgem com muita regularidade.

“Vejo muitas pessoas, principalmente os mais velhos, a relembrarem, com nostalgia, a imagem do polícia sinaleiro”

Qual é a parte mais difícil do seu trabalho? Qual o maior desafio?

Essa é uma boa pergunta. O maior desafio é o relacionamento com as pessoas. Eu tenho de ter a capacidade de me desligar da minha vida particular, ao sair da minha casa, para vir trabalhar. Tenho de me concentrar inteiramente no meu trabalho, deixar o resto de parte e focar-me no cidadão, pois é a ele que eu sirvo.

O meu objetivo é sempre fazer a minha função o melhor que sei e que posso. No entanto, ainda que o sinaleiro seja visto como um polícia cordial, atencioso e uma autoridade que não multa e que está ali para ajudar, isto nem sempre é fácil. Todos o são, mas na divisão de trânsito, o polícia sinaleiro não tem uma função tão punitiva quanto outras. Por isso, nessas situações, as pessoas já vão um pouco de pé atrás.

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Qual o material essencial para executar as suas funções? O que é que é indispensável no dia-a-dia?

O polícia sinaleiro tem uma imagem de marca, o seu capacete. Até nos chamam o “cabeça de giz”. Esse é indispensável, assim como as luvas. O capacete identifica e as luvas também ajudam na comunicação. Visualmente, para os condutores e peões, é mais fácil perceber quais os sinais que estou a fazer.

Quantos gestos diferentes faz ao longo de um dia normal de trabalho?

Há cerca de meia dúzia de sinais que são essenciais. Os sinais de avanço e paragem à frente ou à retaguarda, por exemplo, são muito utilizados. De vez em quando também utilizo o apito, para chamar à atenção.

Sente que as pessoas compreendem a linguagem gestual ou ficam um pouco hesitantes? O apito coloca-as “em sentido”?

Sim, penso que sim. Eu vou ser sincero, não gosto muito de utilizar o apito. Eu só o uso quando percebo que a pessoa não está a entender o meu sinal. Aí sim, faz sentido, para mostrar à pessoa que o polícia está a tentar passar uma mensagem. Por norma, utilizo apenas os gestos, o que funciona quase sempre bem. As pessoas, de uma maneira geral, entendem. Os gestos são claros mas têm de ser bem feitos, precisamente para não haver dúvidas.

“Não gosto muito de utilizar o apito”

Como reagem os mais pequenos à sua presença, quando acompanhados pelos pais ou avós? Fazem-lhe muitas perguntas?

Quando este projeto teve início, logo nas primeiras vezes, fui abordado por uma jovem com cerca de 13 ou 14 anos que me perguntou: “isto é para os apanhados?” Achei engraçado o comentário. Não estava à espera e depois expliquei-lhe quais as minhas funções e que estava ali para regular o tráfego, quer de peões, quer de veículos. No entanto, acho que seria importante ir às escolas e informar, para que a imagem e a tradição perdurem, para que não se perca o simbolismo do polícia sinaleiro.

Relativamente ao trânsito, qual a situação mais caricata ou difícil com que se deparou? Recorda algum episódio?

Como este projeto tem relativamente pouco tempo, não me recordo assim de uma situação que se destaque. Mas apesar de hoje ser um dia atípico, um pouco cinzento e com pouco movimento, há sempre bastantes peões, principalmente da zona do jardim Visconde da Luz até à zona da praia. Em agosto, por exemplo, o turismo traz a Cascais muito mais gente, fica com muito mais vida. Assim, é naquela zona que eu passo mais tempo.

Veja o vídeo:

No entanto, se houver necessidade, desloco-me para outro sítio. O polícia sinaleiro regressou para se manter a tradição mas com a perfeita noção de que o trânsito é, atualmente, muito diferente. A sinalização é também outra, com mais semáforos. A passadeira no final da Rua Direita, por exemplo, era um ponto crítico. Agora, com sinalização adequada, está muito melhor. São raros os peões que não cumprem. Antigamente, ali, teria trabalho para todo o dia.

Isto para dizer que não existe um ponto fulcral onde eu seja indispensável. Existe sim um percurso que faço diariamente, várias vezes. Mais do que controlar o trânsito, faço um policiamento de proximidade. Isto porque numa zona turística ocorrem, por vezes, alguns furtos a viaturas. Nessas zonas, mais suscetíveis a este tipo de ocorrência, passo lá todos os dias porque só a minha presença afasta quem possa ter más intenções.

Sente que os peões e os condutores circulam de forma mais responsável só com a sua presença? É mais difícil controlar os carros e as motos ou os peões?

Sim. Sinceramente, acho que sim. Por vezes nem preciso de dar indicações. Só a minha presença, mesmo que esteja mais recolhido, leva a que todos circulem de forma mais ordeira. Quando me ponho a observá-los, por vezes noto que as pessoas ficam com a sensação: “deixa-me lá portar bem!”. Relativamente à segunda pergunta, não tenho dúvidas. É claramente mais complicado controlar os peões, principalmente nestas zonas de grande afluência de turistas. Eles estão um pouco por todo o lado.

“É mais complicado controlar os peões nas zonas de grande afluência de turistas”

Pedem-lhe para tirar muitas fotografias?

Sim, quase todos os dias. Não só os turistas. Até as pessoas daqui, da zona de Cascais, porque recordam os polícias sinaleiros que aqui existiam no passado. As pessoas que aqui vivem ou trabalham no comércio local recordam essa fase e querem ficar com uma recordação do agora regressado polícia sinaleiro. São muitas as pessoas de cá que me pedem tirar fotografias.

Com tanta tecnologia no controlo do tráfego e nos automóveis, como vê o futuro do sinaleiro?

É também uma boa questão. Penso que a imagem do sinaleiro é tão cativante que há espaço para ambos. A tecnologia e o polícia sinaleiro devem “caminhar” paralelamente. Independentemente da sofisticação dos automóveis, o polícia sinaleiro deve continuar. É uma figura mítica, faz parte da nossa sociedade. Há espaço para todos e a tradição deve manter-se viva.

Percorra a galeria e veja as fotos do polícia sinaleiro em Cascais.

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